As duas cadeiras mais inúteis que tive durante o curso foram as ligadas à gestão. Uma delas chamava-se Introdução ao Estudo da Empresa, e a outra, Técnicas de Orçamentação. O problema não eram as cadeiras em si, mas a forma como os professores as deram. Numa escola onde havia também Contabilidade, Gestão e Marketing, alguns desses professores pensavam que os alunos de Design, "esse pessoal das artes", tinham um cérebro de aptidões reduzidas para coisas que envolvessem números, podendo apenas processar operações simples como somar dois mais dois, e por isso, falavam-nos de empresas, gestão e orçamentação como quem tenta explicar fusão termonuclear a uma criança de dez anos. O tipo que dava Técnicas de Orçamentação, esse então foi o professor mais inútil que tive em toda a minha vida, e o que a mim me admirava na altura era como é que uma nulidade daquelas podia ser professor no Ensino Superior. Enfim, adiante. Lá para o fim do semestre, para I.E.E. (She loves you, yeah yeah yeah…), davam-nos um trabalho. Tínhamos que ir chatear os tipos de uma empresa qualquer e pedir-lhes que nos fizessem o favor de nos facultarem dados para que pudéssemos traçar uma descrição estrutural, comercial e operacional da empresa (vulgo: quem são estes gajos e o que é que vendem ou fazem). Isto, sem que ninguém da escola se dignasse sequer a fazer um contacto prévio com um pequeno conjunto de empresas, para que não aparecêssemos ali de pára-quedas. Nada. Ainda me lembro do ar pesaroso da recepcionista da empresa à qual eu e os meus colegas nos dirigimos, ao informar o chefe de que estavam ali "outra vez uns estudantes para fazer aquele trabalho do estudo da empresa ou o que era". Devia ser a enésima vez que alguém lá ia chateá-los. Ainda assim, eles colaboraram. E ainda nos ofereceram uns litros de leite. Fomos à Cooperativa Leiteira. Uns tansos, claro. se tivéssemos ido à Adega Cooperativa, em vez de leite tinham vindo umas garrafitas. Quando eu já tinha concluído o curso e trabalhava na escola, um dia estava no laboratório de Edição Electrónica, do qual era uma espécie de responsável, e entra um gajo que nesse ano era o professor de I.E.E., com um grupito de três alunas que iam fazer a apresentação do seu trabalho de estudo da empresa. O fulano não tinha sido meu professor, era outro. E pediu-me se podiam utilizar o laboratório, já que ali não estava a haver aula, e todas as outras salas estavam ocupadas. Sua Excelência sentou o rabinho, e as rapariguinhas lá começaram a fazer a apresentação. Tinham ido chatear uns produtores de fumeiros e enchidos. A empresa fazia transformação de carne alentejana em iguarias de grande qualidade. Fizeram uma apresentação audiovisual toda bonitinha, acompanhada de explicação oral, e eis que no fim estendem numa mesa comprida dezenas de exemplares de cada um dos produtos que a empresa vendia. Chouriços e chouriças, paio, salpicão, farinheiras e alheiras, morcelas, toucinho fumado, presunto fatiado, salame, palaio… enfim, uma visão capaz de comover qualquer vegan que por ali passasse. Eram uns cinquenta ou sessenta produtos diferentes, vendidos em Portugal e exportados. Um lote daqueles de tão deliciosas delícias (a redundância é propositada) custaria, sem margem para grandes erros, perto de quinhentos euros, mas de certeza que teria sido uma oferta às moças pela empresa, pois eram umas miúdas simpáticas. No final da apresentação, o professor disse-lhes que tinha corrido muito bem, e que aguardassem uma boa nota. Só que as raparigas subiram a parada, e tiraram da cartola a engraxadela mais descarada que já vi em toda a minha vida: disseram ao professor que queriam oferecer-lhe os petiscos. O que faria qualquer gajo minimamente decente perante este cenário? Obviamente agradeceria, e recusaria a oferta. Era quase uma questão ética, e ainda podemos juntar-lhe o facto de que se tratava de três miudinhas estudantes, que viviam longe das suas famílias, e a quem aqueles enchidos e fumeiros iriam dar muito jeito para manter uma despensa arranjada durante muito tempo. Mesmo até que o fulano tivesse ficado a salivar a jorros ao olhar para tanta delícia, o que não me admira nada, ainda podia aceitar duas ou três peças, ou dez ou quinze que fossem, deixando-lhes as restantes. E mesmo que não fosse pela via da ética ou do bom-senso, podia ao menos ir pela da inibição, pois eu estava ali, e fiz questão de me aproximar para ver o que é que o tipo ia fazer. Mas não. Nem pestanejou. Disse logo que sim senhor, muito obrigado, toca a meter nos três ou quatro sacos e ala que se faz tarde. Se a atitude das miúdas não foi a melhor, mas ainda assim podia ter sido completamente inocente, e acharam que seria um gesto apreciado oferecer o lote ao professor, a atitude do senhor foi lamentável. Não consigo perceber quão avaro pode ser um gajo destes, ao ponto de se abarbatar assim com todos aqueles enchidos e fumeiros, não deixando um sequer para as miúdas, e sair de uma sala de aula onde tinha acabado de fazer uma avaliação, feliz e contente, com três ou quatro sacos bem carregados nas mãos. Na altura, calei o bico, pois não era nada comigo, e eu não queria problemas por causa de uns sacos de chouriços. Mas quando o encontrava no bar ou nos corredores, pensava sempre cá para comigo: olha, o reles e miserável unhas-de-fome tinhoso e avarento.